“Vamos virar o espelho para dentro e nos perguntar: por que essas reações estão sendo acionadas? As crianças vão despertar essa bagagem emocional que está enterrada no fundo do nosso inconsciente, mas precisamos libertá-las do fardo de consertar nossos problemas não resolvidos”.

Como normalmente nos definimos? São nossas experiências que moldam quem somos hoje e, em caso afirmativo, que tipos de experiências? Quem dá sentido à maneira como percebemos o amor e o carinho? Que emoções nos paralisam e como podemos nos recuperar dessas associações que construímos mentalmente? Essas histórias tendem a se voltar para nossa infância e nossas experiências. Nós nos apegamos à nossa infância por muito tempo na idade adulta, e carregamos essas marcas conosco todos os dias. As primeiras experiências que nos marcaram correm soltas dentro de nós, e influenciam o modo como nos definimos e como percebemos a vida e os outros. E se nós, como pais, pudéssemos transformar esse papel em algo novo, com curiosidade, consciência e um compromisso renovado? Nada poderia potencialmente transformar a consciência global tanto quanto a maternidade ou a paternidade. Tudo o que ensinamos às crianças – como cuidar de si e dos outros, como lidar com as próprias emoções, como pensar, criar, inovar – pode deixar de ter valor se não dermos o exemplo e demonstrarmos os comportamentos que tanto desejamos ver neles. Naturalmente, a criação não é a única variável. Existem muitas variáveis envolvidas: neurobiologia, temperamento, pressões sociais, pobreza, educação, e até a cultura. Nós, no entanto, construímos um relacionamento com nossos filhos todos os dias. Quando consideramos esse poder de influência?

Todos os dias eles buscam conforto, acordam e vêm correndo à nossa procura – esses são os momentos em que temos poder real. Esses momentos e como reagimos a eles acabam os impactando neurobiologicamente e psicologicamente, transformando o emocional de seu cérebro.

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Ninguém nos ensinou a ser pais, e certamente não estamos sempre conscientes de nossas reações em relação aos nossos filhos e por que elas acontecem. Quando as coisas não saem conforme o planejado, resistimos e nos perdemos em nossas lutas mentais – nos tornando dissociados do momento presente e nos perdendo em nossos pensamentos. Como humanos, nossas camadas são profundas, herdamos bibliotecas genéticas de bagagem emocional de nossos pais e de gerações passadas que dormem em nosso inconsciente. Elas podem ser facilmente acionadas e estimuladas por nossos filhos, que podem perfeitamente nos fazer perder o controle. Quando isso acontece, é comum sentirmos a necessidade de corrigi-los. Eles podem nos fazer sentir impotentes  – coisa que não queremos sentir – e, para recuperar o sentimento de superioridade, reagimos. Esquecemos a conexão e sentimos a necessidade de estar no comando. Nós reagimos com: “Por que você não é mais parecido com a sua irmã?”, ou “Por que você não faz o que eu mando?”.

Nossos filhos não precisam ser consertados, e certamente não são inadequados ou anormais, mas somos prisioneiros de nosso crítico interior e os julgamos como criaturas malignas. Eles são realmente maus e caóticos? Ou nós é que temos um problema com nossa consistência, nossa liderança e nossa forma de lidar com conflitos, e deixamos isso de lado toda vez que dizemos “não” a eles? Vamos virar o espelho para dentro e nos perguntar por que essas reações estão sendo acionadas? As crianças vão despertar essa bagagem emocional que está enterrada no nosso inconsciente, mas precisamos libertá-las do fardo de consertar nossos problemas não resolvidos.

As crianças chegam ao mundo sendo sinceras, curiosas e merecedoras. Elas ficam facilmente satisfeitas com um giz de cera e um livro de colorir. O que estamos inconscientemente ensinando a elas todos os dias sobre abundância e seu valor próprio? Como pais, nós erramos e olhamos para fora, ensinando-as a buscar autoestima em outro lugar – em realizações, em perfeição, em sucesso. O que acontece quando elas falham? Sua autoestima desmorona, porque nós a relacionamos ao que acreditamos ser o “sucesso”. Precisamos mirar esse holofote para dentro. Nós, como pais, precisamos evoluir e nos conhecer plenamente, pois, conforme nos conhecemos, isso refletirá sobre o quanto nossos filhos se conhecerão. A forma com que aproveitamos cada momento, rimos de nós mesmos e vivemos livremente será como nos filhos viverão essas emoções e sentimentos também. Precisamos parar de pensar em nós mesmos como indivíduos no topo da pirâmide hierárquica e, ao invés disso, enxergar nossos filhos como agentes semelhantes – ou agentes ainda maiores, que são trazidos para as nossas vidas para nos ajudar a despertar.

Vamos viver em um estado de gratidão; vamos fazer uma pausa, refletir e nos conectar profundamente com esses seres superiores que chamamos de “nossos filhos”. Vamos dar sentido à maneira como eles percebem o amor e a alegria, e ensiná-los a viver e aproveitar o momento – e vamos fazer isso vivendo dessa maneira. Nossos filhos não são as versões idealizadas de nós mesmos; eles são seres únicos, vamos celebrar sua individualidade! Leia mais sobre esse movimento: The conscious parent.